E se alguém te contar que o Brasil pode ganhar seu primeiro Oscar por um filme americano com uma história de um casal homossexual que se apaixona em uma cidadezinha da Itália, você acreditaria? Então, pode acreditar. Produzido pelo brazuca Rodrigo Teixeira (“A Bruxa”), a adaptação cinematográfica da obra literária de mesmo nome “Me Chame Pelo Seu Nome”, pode finalmente dar o tão sonhado prêmio para a nação brasileira.

Situada no início dos anos 80, na Itália, a trama acompanha o sensível adolescente Elio Perlman (Timothée Chalamet), que vive com sua família judia em uma pequena cidade do interior. Sua vida é rapidamente alterada com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um jovem acadêmico que veio auxiliar seu pai (Michael Stuhlbarg) em um trabalho de pesquisa. Incomodado inicialmente pela a arrogância e pelos modos menos tradicionais do universitário, Elio aos poucos vai se fascinando pelo forasteiro.

Me Chame Pelo Seu Nome não é um filme gay, é um filme universal. A temática homossexual serve muito mais como um pano de fundo para a história do que como uma pauta central. Para quem espera algo mais politizado ou contextualizado, será surpreendido, mas dificilmente sairá decepcionado. É tão bom quanto, por exemplo, “O Segredo de Brockback Mountain” (2005), considerado o melhor filme sobre gays. Mas as duas obras não se assemelham em muita coisa: enquanto a produção de Ang Lee representa fielmente os obstáculos existentes no mundo gay; Me Chame Pelo Seu Nome é como se fosse um conto de fadas, um universo paralelo, uma utopia. Essa perspectiva positivista não é ruim, pelo contrário, é belo. Apenas vale ressaltar que este filme não tem necessariamente uma mensagem crítica, apenas a de propagar o amor.

Mesmo não sendo, de fato, um filme gay, os mais conservadores poderão se incomodar com algumas cenas mais picantes, que não costumam aparecer no mainstream ou em Hollywood. Mas, apesar disso, qualquer um vai se identificar com os sentimentos, anseios e medos do casal de protagonista, principalmente as do jovem Elio. O longa foca, sobretudo, no autodescobrimento, na arte de flertar e no amor. Há uma cena na qual eles descobrem que estão interessados um pelo o outro que é simplesmente sublime. Feita nas entrelinhas. Os momentos que antecedem a esse ponto, também são excitantes entre os dois. Cada um usando suas próprias táticas implícitas de paquera.

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A química entre Timothee Chalamet e Armie Hammer é estonteante. O jovem ator poderia e, talvez, pode até ganhar a estatueta dourada em cima de Daniel Day-Lewis e Gary Oldman, duas lendas vivas da sétima arte. Não é para qualquer um. Certamente terá uma grande carreira pela frente (Timothee pode ser visto também em Lady Bird, outro filme que deve arrasar no Oscar). As nuances de sua atuação é composta por várias camadas. E falar quatro línguas em um só filme, além de tocar música clássica no piano e no violão, são qualidades que também valorizam o seu desempenho, ainda mais por conta da pouca idade. Mas nas cenas mais quentes, ele entrega o que muitos atores consagrados não teriam a coragem de fazer, nem mesmo quando eram mais jovens.

Já Armie Hammer, nunca tinha impressionado ninguém por alguma coisa que não fosse sua beleza e sua estatura (1,96 cm). Tinha vivido um personagem homossexual em “J. Edgar” (2011), contracenando com o Leonardo DiCaprio e sendo dirigido por Clint Eastwood. Mesmo assim, sua performance é péssima. Verdade seja, nada salva naquele filme. Talvez por osmose, o fato é que Hammer aos poucos está virando um ator de primeira classe. Que a evolução continue.

O outro destaque, mas não menos importante do elenco, é o ator Michael Stuhlbarg. Ele, que está virando uma espécie de Mark Ruffalo desta década, fazendo ótimos trabalhos no papel de ator coadjuvante (mas também esteve excelente protagonizando “Um Homem Sério”, dos Irmãos Coen), está na cena mais impressionante do filme. A conversa franca que seu personagem tem com o seu filho, é talvez o único momento no qual nos lembramos que é uma história gay. É um momento que resume bem a obra. Por menos de 10 minutos, Stuhbarg poderá garantir uma indicação na premiação mais importante do cinema.

A direção do italiano Luca Guadagnino é bem competente. Ele não chega a tirar leite de pedra, mas não prejudica em nenhum momento o roteiro e tem méritos por arrancar boas atuações do elenco. É louvável também a forma em que ele se apega à detalhes poucos importantes na história, como a cena do peixe, para deixar a trama mais orgânica. E não precisou se aprofunda em assuntos mais comuns, como o passado do Oliver ou sobre quem são as amigas de Elio, que não são relevantes. Mas sem dúvida nenhuma, o roteiro é a melhor coisa da adaptação cinematográfica. Não vem ao caso se a obra literária é melhor ou pior, o que importa aqui é o resultado na telona. Há muita poesia nos diálogos e a sedução contada com tanta riqueza de detalhes é encantadora.

Delicada e doce, a canção “Mystery of Love”, de Sufjan Stevens, ajuda a transportar o telespectador para o filme. Sua letra remete à relação do rei Alexandre, o grande. e de seu companheiro Heféstio. Melhores amigos, também são lembrados por historiadores como um casal homoafetivo. A composição original casa com os temas e as conservas filosóficas da era clássica grega que rodeiam a casa do professor e o relacionamento da dupla apaixonada, que brinca de trocar seus nomes entre si.

“Como Heféstio, que morreu
Amante de Alexandre
Agora meu leito de rio secou
Não encontrarei outro?”

oliver

O filme termina como possivelmente a melhor relação amorosa do cinema. Ironicamente (tendo em vista a história da nossa sociedade), é estrelada por um casal de gays. E, quem sabe um dia, esses romances possam a ser vistos, da mesma forma como são enxergados no filme, sem rótulos extras, apenas como romances.

9.0/10