Até um tempinho atrás, muito se comentou sobre o talento precoce do cineastra Damien Chazelle, que. com apenas 31 anos, já tinha em seu currículo “Whiplash” (2014) e “La La Land” (2016), dois sucessos de bilheteria e crítica. Realmente impressiona o talento prematuro de Chazelle, mas tiveram alguns outros casos de cineastras mais prodígios ainda e que muitos desconhecem ou não lembram. É o caso de  Paul Thomas Anderson.

O PTA, como seus fãs gostam de chamá-lo, com espantosos 29 anos já tinha concebido “Boogie Nights” (1997) e “Magnólia” (1999). Não dá nem para dizer que o diretor era uma promessa depois dessas duas obras, pois o nível de qualidade e maturidade artística que tinha sido demonstrado nesses filmes, tanto na direção quanto no roteiro, o carimbava como um grande autor de cinema.

Paul Thomas Anderson é um excelente diretor e um magnífico escritor. Ele tem total controle de suas obras. Mas nem sempre foi assim. Em seu primeiro longa-metragem, “Jogada de Risco” (1996), a produtora, que financiou o filme, editou a película para ser mais comercial, sem a benção de PTA, e a enviou para o Festival de Sundance. O corte dos produtores acabou não tendo grande êxito no evento.

ptaa

Porém, meses depois, Anderson mandou sua própria montagem para os realizadores do Festival de Cannes. Lá, o filme foi um sucesso de crítica, e a produtora, depois de longas batalhas, concordou em liberar a versão do diretor. PTA só não conseguiu utilizar o título que queria. Em vez de se chamar “Sidney”, nome do protagonista da história interpretado por Philip Baker Hall (Magnólia), o longa foi intitulado “Hard Eight”, fazendo uma alusão aos jogos de cassino.

Paul aprendeu a lição e desde “Boogie Nights” também exerce a função de produtor, uma maneira de ter maior controle de seu trabalho. O diretor talentoso, que por acaso era jovem, nos anos seguintes se consolidou como um verdadeiro mestre, sendo o único cineastra a ter ganho o prêmio de Melhor Diretor nos três principais festivais da europeus: Cannes “(Embriagado de Amor”), Veneza (“O Mestre”) e Berlim (“Sangue Negro”).

5 – Vício Inerente (2014)

vicioBaseado no livro homônimo do celebre escritor Thomas Pynchon, Vício Inerente é um retrato mordaz da Califórnia dos anos 70. As drogas, a paranoia e o declínio do American way of life estão por toda a parte. Neste cenário caótico e repleto de personagens que entram do nada e desaparecem da mesma forma, seria difícil imaginar uma obra como essa ser adaptada mantendo sua atmosfera alegórica, mas Paul Thomas Anderson tem tanto domínio do que cria, que fez não só um excelente trabalho, como também acrescentou mais elementos alucinógenos à história.

A trama gira em torno do detetive particular Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix), um hippie consumidor de substâncias ilícitas (redundância?), que investiga o desaparecimento de sua ex-namorada e do novo amante dela, um magnata do ramo imobiliário. Essa investigação leva Doc a uma série de outros casos envolvendo organizações poderosas, que se conectam, criando, assim, uma trama bem mais complexa e perigosa do que aparentava ser.

Essa comédia deliciosa pode parecer confusa. A história é mostrada pela perspectiva do personagem central. A realidade, o passado, os devaneios e os efeitos de drogas frequentemente se misturam. Mas este não é um filme para se preocupar em se atentar a todos os detalhes, para compreender o enredo, o grande barato (bicho) é curtir as sensações que cada cena proporciona. É como se fosse um “Réquiem para um Sonho” (2000) paz e amor.

Uma outra dica para assistir a obra, é relacionar o contexto histórico daquele período com os panos de fundo do longa. Vicio inerente homenageia o início da década de setenta, mas também traz consigo uma forte critica a política da época do Tio Sam. Quando, por exemplo, é mostrado que um bairro pobre desapareceu nas mãos de empreiteiras para virar um condomínio de luxo. Ou quando o combate às drogas, por parte do governo, se revela fajuto.

Obviamente nem Anderson nem Pynchon compartilham de ideias semelhantes a de Charles Manson. O psicopata, inclusive, é citado algumas vezes no filme com o intuito de mostrar como a família Manson marginalizou o movimento hippie e trouxe uma onda de medo e insegurança para a sociedade americana, que ajudaram a fortalecer o conservadorismo no país.

4 – Boogie Nights – Prazer sem Limites (1997)

boogieUm tema tão rico mas que Hollywood tinha medo de abordar, era o do mundo pornográfico. Ridicularizada, a indústria pornô sempre sofreu preconceitos da sociedade em geral. Mas como o senhor Anderson não tem medo de arriscar (já até dirigiu Adam Sandler) e cresceu admirando filmes de conteúdo adulto, a temática foi um caminho natural para ele. Embalados por uma trilha que evoca os tempos de discoteca, Boogie Nights retrata a era de ouro do pornô e os dramas por trás dessas produções.

A história começa com um jovem (Mark Wahlberg), sem muito vocação para os estudos e com um enorme pênis, que é descoberto por um diretor de filmes pornôs. Tentando realizar seu sonho de virar uma estrela do cinema e sem ter onde morar, após sua mãe o expulsar de casa, Eddie Adams decide ingressar na indústria pornográfica. O rapaz, usando o nome de Dirk Diggler, vira rapidamente um sucesso. Mas, aos poucos, a fama repentina sobe a sua cabeça na mesma medida que aumentava o seu vício em drogas.

Apesar de todo o drama, o filme está mais para uma comédia dramática. As histórias surreais dos pornôs retratados no longa (com e sem duplo sentido) não deixam de ser cômicas, como normalmente são na vida real. O trio de atores Don Cheadle, William H. Macy e John C. Reily estão quase todo tempo em situações hilárias. A introdução no ramo musical de Dirk Diggler é outra pérola que deve ser apreciada com bons risos.

Mas a dinâmica e estrutura de Boogie Nights se assemelham mais as de um filme de gângster, mesmo não sendo um. Bem, na verdade há dois personagens na história que são traficantes e que protagonizam a melhor cena da obra. A cena em questão é com Thomas Jane e Alfred Molina e poderia ter sido tirada tranquilamente de uma produção do Scorsese ou do Tarantino.

Logo no inicio, PTA  mostra uma de suas principais marcas: as longas tomadas sem cortes (plano sequência). Outra faceta do cineastra que se evidencia aqui, é o de grande diretor de atores. O filme impulsionou a carreira de Mark Whalberg e de Phillip Seymour Hoffman, que brilha vivendo um homossexual com uma paixão reprimida. Mas os maiores louros foram colhidos pelos os veteranos Burt Reynolds e Julianne Moore, que conseguiram suas primeiras indicações ao Oscar.

3 – O Mestre (2012)

o mestreUm outro assunto bem polêmico e delicado, que cada dia ganha novos adeptos famosos, é a cientologia. A religião ou a seita que é mundialmente conhecida pelos seus dogmas nada convencionais, domina boa parte de Hollywood e, por isso, mesmo sendo um tema bastante controverso, cineastras optam ou são forçados a não tocarem no assunto. Mas coragem e moral é o que não falta para Paul Thomas Anderson, um diretor que também adora aborda temas religiosos em seus filmes.

Um veterano de guerra (Joaquin Phoenix), que tem problemas com álcool e que ainda sofre com as consequências da guerra, encontra conforto em sua busca pelo sentido da vida em um mestre (Phillip Seymour Hoffman) de uma organização religiosa chamada “A Causa”. Além de uma amizade, o guia espiritual vê no seu novo colega uma forma de mostrar suas habilidades enquanto mentor para seus seguidores.

O fim das grandes guerras é até hoje para muitos sobreviventes um eterno vazio. Os traumas psicológicos e físicos, a insuficiência de não poder fazer a única coisa que se aprendeu fazer, a falta de emparo do governo. Enfim, na maioria dos casos a guerra para os soldados e oficias de baixa patente não foi o melhor negócio a se fazer.

A Cientologia funciona no filme mais como um pano de fundo. Embora haja várias semelhanças entre a seita real e a da ficção, incluindo as sessões de interrogatório, é possível enxerga no filme várias outras religiões ou líderes espirituais ao redor do mundo.

O Mestre é sobretudo um filme sobre fraternidade. A relação de afeto entre homens tão diferentes é o que norteia a obra. Freddie é o discípulo indisciplinado e Lancester é o mentor charlatão. Ambos são animais selvagens, mas um finge não ser. Joaquin Phoenix e Phillip Seymour Hoffman se imortalizaram nessa obra-prima como uma das duplas mais poderosas a contracenarem na história do cinema.

2 – Sangue Negro (2007)

willApós alguns anos de bloqueio criativo, Paul Thomas Anderson volta a cena com “Sangue Negro”, estrelada pelo deus da atuação Daniel Day-Lewis (Lincoln). O filme marca também o inicio de sua parceria com o multi-instrumentista Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, O diretor de fotografia Robert Elswit, com quem PTA mais trabalhou, teve finalmente seu trabalho reconhecido com a honra máxima dada pela a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Sangue Negro também recebeu mais 7 indicações aos prêmios da organização (incluindo Melhor Filme) e ganhou outra estatueta com Day-Lewis. Em 2016, o longa de época foi escolhido o terceiro melhor filme do século XXI pela BBC.

Em meados de 1900, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um explorador de Petróleo que descobre a existência de uma grande quantidade de “ouro negro” em uma cidade do interior da Califórnia. Junto com seu filho adotivo (Dillon Freasier), Daniel parte para a nova região. Porém, lá, sua cobiça é confrontada pela a ambição e a desconfiança do jovem pastor Eli Sunday (Paul Dano).

Sangue negro é o primeiro filme de uma trilogia não oficial sobre o American Dream (sonho americano). Os dois outros longas que compõe a trinca são “O Mestre” e “Vício Inerente”. Nos três filmes, nota-se a figura do capitalista, do guia espiritual e do homem comum, à procura da felicidade. Que representam, respectivamente, o dinheiro, a essência divina e o povo yankee, três pilares do estilo americano de vida.

Os capitalistas são representados pelo minerador Daniel Plainview (Day-Lewis), pelo “escritor, médico, físico nuclear e filósofo teórico” Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), pelo policial “Bigfoot” (Josh Brolin) e também por o Magnata Michael Z. Wolfmann (Eric Roberts); o jovem pastor Paul Sunday (Paul Dano), o líder do movimento “A Causa” Lancaster Dodd (papel duplo de Seymour Hoffman) e a astróloga (?) Sortilège (a também cantora Joanna Newsom) são os guias espirituais; já os homens comuns, são vividos pelos atores Joaquin Phoenix (como Freddie Quell, em “O Mestre” e Doc Sportello, em “Vício Inerente”) e Kevin J. O’Connor (como Henry Brands, em “Sangue Negro”).

Em Sangue Negro, é muito mais nítido e preciso a relação de amor e ódio do capitalismo com a religião, neste caso, cristã. Podem até se aliar, mas, ao pé da letra, são completamente opostos. Mesmo assim, ambos precisaram quase que necessariamente um do outro para crescer na América e dominar o homem (se entende ser humano) comum.

Mas nenhum desses são os melhores exemplos de pessoas. Não há mocinho ou mocinha. Paul Thomas Anderson não está preocupado em levantar uma bandeira política, o papel dele nessas obras – além do próprio compromisso com a arte – é de relatar períodos históricos e “personagens” importantes na construção da sociedade contemporânea americana. E, claro, não deixando de expôr as suas falhas.

A trilogia funciona como uma belíssima aula sobre a história americana, mas não é difícil fazer um paralelo dessas tramas com o passado e presente do Brasil. A corrida do ouro em Minas Gerais ou, mais recentemente, em Serra Pelada; o boom de igrejas cristãs nos últimos 50 anos e o enriquecimento exorbitante de vários líderes religiosos (que manipulam com facilidade os menos instruídos para arrecadar mais dinheiro); e a Tropicália (nosso movimento hippie tardio) durante a ditadura (ou regime) militar. Então se você gosta de história, é um motivo a mais para assistir a essa falsa trilogia sobre a falsa ideia da felicidade americana (nacional e continental).

1 – Magnólia (1999)

magCom 188 minutos, Magnólia é o filme mais longo do Paul Thomas Anderson. Não por acaso, foi um fracasso de bilheteria. Na época, ao ser questionado por um jornalista sobre o mau desempenho da obra nas bilheterias, PTA disse: ‘Não me contrataram para ganhar dinheiro, me contrataram para ser ‘cool'”. Essa frase define perfeitamente a sua filmografia.  Com oito filmes no currículo, apenas dois foram sucessos financeiros. Mas indo contrariamente a uma Hollywood que visa cada vez mais o lucro, as produções de Anderson continuam a ser financiadas, pois ainda há algo nesse meio que vale mais do que dinheiro: o prestígio. Claro que tem muita gente que tem essa condecoração e foi esquecida pela industria cinematográfica. O que difere Anderson dos demais, é ele nunca ter feito um filme que tenha sido mal avaliado pela crítica em geral rotten tomatoes e que não tenha ganho vários prêmios ao redor do mundo.

A trama de Magnólia se passa em Los Angeles e gira em torno de nove personagens, que são interligados por “coincidências” do destino. Todos eles também nutrem sérios problemas com seus pais, filhos ou com interesses amorosos. E um acontecimento na Rua Magnólia mudará a vida de todos para sempre.

O drama de mais de três horas sugere que coincidências do dia a dia nem sempre são meras coincidências. O filme aborda questões como destino e intervenção divina. De certa modo, pode ser visto como um filme religioso, mas que felizmente não tem a qualidade de uma produção gospel. Para quem viu Magnólia, “Mãe!” (2017), de Darren Aronofsky, parece um filme inteiramente mastigado para crianças. Não, não é tão polêmico quanto a obra estrelada por Jennifer Lawrence, porém, é muito mais eficaz com referências e metáforas à Bíblia. Tecnicamente também nem se compara. Magnólia foi indicado por 3 vezes ao Academy Awards, enquanto que Mãe! corre o risco de ganhar alguns Framboesas de Ouro.

A grande inspiração ou o grande muso inspirador de PTA para criar esse película, talvez, seja Robert Altman. Fã declarado, não era preciso revelar publicamente sua admiração, visto que quase toda as suas obras fazem referências nítidas aos filmes de Altman. Magnólia parece com “Short Cuts – Cenas da Vida (1993)”.cujas as histórias de várias pessoas, que vivem na California, se cruzam por acasos da vida. Aqui, a natureza desses encontros não é um ponto a ser explorado. Curiosamente, Juliane Moore está nos dois filmes. Outra semelhança, é a presença de Robert Downey Sr. em Magnólia e de seu filho Robert Downey Jr. em “Short Cuts”. As tramas de ambos os clássicos também são marcadas por acontecimentos inesperados. Mas, no fim das contas, a obra do pupilo se mostra mais memorável do que a do mentor. Magnólia tem um foco mais bem definido e executado. Além disso, o roteiro de Anderson não se limita a falar apenas de relacionamentos; ele é repleto de camadas.

Outras obras da dupla que se parecem são: Boogie Nights, um filme metalinguístico, que fala de cinema, assim como “O Jogador” (1992). Os dois longas começam também com um longo plano sequência. Os cineastras fizeram igualmente filmes neo-noir de detetives: Vício Inerente e “O Perigoso Adeus” (1973). O cassino e os jogos de azar são panos de fundo para Jogada de Risco e “Jogando com a Sorte” (1974). O veterano Philip Baker Hall, que estrela o primeiro filme de Anderson, foi convidado para participar de Jogada de Risco devido a sua atuação em “Honra Secreta” (1984), de Altman. Para finalizar, a música “He Needs Me”, que faz parte da trilha-sonora de Embriagado de Amor, foi originalmente tocada no filme “Popeye” (1980).

Além das indicações ao Oscar, Magnólia também ganhou um Globo de Ouro de Melhor Ator de Drama com Tom Cruise, este que está em sua melhor interpretação da carreira. O elenco,  dos mais incríveis do cinema dos últimos 20 anos, também conta com antigos parceiros de PTA, como John C. Reilly, Juliane Moore, Philip Seymour Hoffman, Philip Baker Hall e William H. Macy. O destaque para os novos rostos fica com o (ex) jovem Jeremy Blackman, que arrasa num papel de uma criança explorada pelo pai, que o obriga a participar de um programa televisivo de perguntas e respostas. Também não se pode esquecer das excelentes músicas da cantora Harry Nilsson,  com louvores para “Save Me” e “Wise Up”, esta, inclusive, é cantada por todos os protagonistas em diferentes pontos da cidades, em um momento de pura licença poética.